Sobre o puerpério: quando devo buscar ajuda profissional?

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A gravidez é um período de intensas transformações e durante esse período, o corpo da mulher se adapta a esse novo ser. Mudanças diversas irão ocorrer: desde o aumento da circunferência da cintura e dos seios até as não tão sutis alterações de humor. Os órgãos internos terão que se reajustar. E, assim como haverá um “esticamento” do corpo, durante esses nove meses, haverá o elastecimento do psiquismo materno, na tentativa de encaixar o novo integrante familiar.

No entanto, esse bebê, para o qual a mulher se prepara, é um bebê idealizado e ele não necessariamente – e muito possivelmente – não corresponderá a todas as suas expectativas. O encontro com o bebê real só se dará após o parto. E, em muitos casos, esse encontro não é tão somente prazeroso, implicando uma tarefa psicológica da mãe: a elaboração da perda de seu bebê ideal a partir do momento que se relaciona com o bebê real.

Dez entre dez mulheres que nos procuram, relatam que o puerpério é uma fase difícil e que não imaginavam que seria assim. Privação de sono, de fome, bagunça na casa, desencontro entre o casal, desespero ao ouvir um bebê chorar e não saber por que ele chora – “O que ele quer agora?” – passam a fazer parte da rotina da mãe e do pai e os desavisados sofrem muito mais, pois passam a acreditar que o problema está neles que não estão sabendo cumprir com a sua função.

Sim, meus queridos, o puerpério é uma prova de fogo! Os bebês nos reviram do avesso e nos colocam numa posição tão difícil de assumir: a de que nada sabemos sobre eles, em princípio. E isso tem uma razão: não há como saber sobre alguém que acabamos de conhecer! Sim, eu sei, ele estava em sua barriga, mas lembre-se: era o bebê idealizado por você e nem todas as expectativas geradas por ti serão, necessariamente, correspondidas. Por outro lado, ele não é um completo estranho e ninguém saberá mais dele do que você. Basta que se permita, se perdoe e tente ao máximo, levar esse momento com mais leveza.

Então, vamos falar o que é esse tal de puerpério, sobre as possibilidades de conflitos psicológicos e quando é necessário buscar ajuda profissional.

Puerpério

O puerpério, assim como a gravidez e o parto, é considerado um período de crise pois implicam não somente mudanças orgânicas e hormonais, mas profundas modificações psicológicas em que o fisiológico e o psicológico implicam-se mutuamente, quase de forma indistinta.

Diante das inúmeras mudanças acarretadas a partir do nascimento de um filho, talvez a mais complexa seja a abertura do vão inconsciente que nos coloca diante da nossa própria história, de modo a reviver inconscientemente o vínculo precoce da mulher com sua própria mãe. Raphael-Leff  (1997) descreve sobre essa oportunidade de rever velhos desequilíbrios: “as primeiras semanas após o nascimento não são meramente um período de aprender a lidar com um novo bebê, mas um apaixonado confronto com um ser que esteve em seu interior e (…) incita antigos resíduos da infância em ambos, mãe e pai” (p.127-128).

Corroboram com esse pensamento, os estudos que falam sobre aspectos trangeracionais e intergeracionais. O primeiro se refere a conflitos associados a gerações anteriores, principalmente a família de origem dos pais. Já o segundo está ligado à vivências da mãe com sua própria mãe. Em todos os casos, as representações maternas sobre sua própria mãe, sobre si mesma e sobre o bebê podem influenciar, mesmo que inconscientemente, a relação atual na díade mãe-bebê. (CABRAL, LEVANDOWSKY, 2010).

Quanto ao tempo de duração de um puerpério, essa é uma questão controversa para alguns autores. A exemplo, podemos citar duas mulheres dedicadas ao estudo da maternidade: enquanto Maria Tereza Maldonado, psicanalista brasileira, acredita que o puerpério é considerado o quarto trimestre da gestação, Laura Gutman, autora argentina de livros que exploram o universo da maternidade, acredita ser o período que persiste enquanto dura a fusão emocional com o bebê, em torno dos dois primeiros anos.

Uma grande confusão a respeito do que é considerado comum ou patológico a essa fase diz respeito a construção histórica acerca do puerpério e da depressão pós-parto. Estudado há séculos, o puerpério está nos relatos de Hipócrates, no século IV aC, onde havia a observação de que algumas mulheres desenvolviam transtornos mentais após o parto. A melancolia, a tristeza, a agitação física e psíquica, semelhantes à mania foram sendo observadas ao longo dos anos como fazendo parte desse momento, mas sempre levando-se os sinais e sintomas para o contexto patológico.

Durante o puerpério é comum que as mulheres estejam imersas no processo de encantamento entre ela e seu bebê. Essa imersão é necessária para o reconhecimento entre ambos e para a conseqüente formação do vínculo que, por sua vez, é necessária à constituição do bebê como sujeito. Winnicott já tinha alertado para esse sentimento que se inicia no final da gestação e pode durar algumas semanas após o nascimento do bebê, denominando-o “preocupação materna primária”. Assim, ele define esse estado de sensibilidade exacerbada de modo que a mãe, a partir dessa identificação com o bebê, sabe do que ele precisa:

“Essa condição organizada (que seria uma doença no caso de não existir uma gravidez) poderia ser comparada a um estado de retraimento ou de dissociação, ou a uma fuga, ou mesmo a um distúrbio num nível mais profundo, como por exemplo um episódio esquizóide, onde um determinado aspecto da personalidade toma poder temporariamente.” (WINNICOTT, 2000, pg. 401).

Veja, o conhecimento sobre o bebê é um processo que vem sendo conquistado com o passar dos dias após o nascimento. E por que estamos dizendo isso? Porque muitas mães se cobram a já estarem enamoradas do bebê assim que ele nasce, que o bebê a preencheria. É verdade que isso acontece com algumas mulheres, mas não é um requisito obrigatório. Esse pensamento de que o amor materno é instintivo está muito mais ligado a uma idéia socialmente construída.

Mulheres que não se vêem encantadas, enamoradas pelos seus bebês nos primeiros dias se cobram e sentem-se menos mães e, em algumas vezes, até menos humanas! Reforçar essa idéia nelas, as deixa mais vulneráveis e sentindo-se menos capazes de exercer a maternagem.

Baby Blues

Dentro do que é considerado como comum ao puerpério está o baby blues, que é um estado emocional do pospartum blues, caracterizado por um período esperado e transitório de instabilidade emocional, lágrimas imotivadas, tristeza súbita e transitória, introversão, irritabilidade e cansaço. Tem início entre o segundo e o quinto dia após o parto e pode durar até o primeiro mês de vida do bebê. Acomete de 80% a 90% das mulheres.

De acordo com Moraes (2010, pg. 51-52, apud Bydlowski, 2000, p.136),

“As causas para o blues são complexas, envolvendo o fim do estresse da gravidez e do parto, as novas condições hormonais, mas, principalmente, estão relacionadas a uma desorganização do ego materno, constituindo-se na “tradução emocional de uma espécie de desnudamento psíquico que permite à mãe lidar com o seu recém-nascido””.

Depressão Pós-Parto

Ainda de acordo com Moraes (2010), quando o baby blues não desaparece e, pelo contrário, se intensifica, mostrando-se severo e durável, ele se torna o precursor da chamada Depressão Pós-Parto.  Esta é acometida no período pós-parto desencadeada por dificuldades psíquicas da mulher em relação à maternidade e caracteriza-se por ser limitante, podendo durar meses sem melhora espontânea. Sem ajuda, se torna uma provação dolorosa no primeiro ano de vida com o bebê. E, embora acometa de 16% a 37% da população, o assunto ainda é um tabu, visto a construção social de que a mãe não pode sentir outra coisa pelo seu bebê, além de um amor imenso e incondicional.

A Depressão Pós-Parto tende a ser mais intensa quando há uma quebra de expectativa em relação ao bebê, a si própria como mãe e ao tipo de vida que se estabelece com a presença do filho; daí advindo prostração, desapontamento, impressão de não ser capaz de enfrentar a situação.  Segundo Maldonado (2005), a mulher, em sua identificação regressiva com o bebê, passa a solicitar cuidados e atenção para si, mobilizando preocupação nos familiares.

Dentre os principais sintomas da Depressão Pós-Parto, estão: desânimo profundo, cessação do interesse para o mundo externo, perda da capacidade de amar, inibição de toda a atividade, diminuição dos sentimentos de auto-estima, humor deprimido, irritabilidade, choro freqüente, falta de energia, agitação ou retardo psicomotor, capacidade diminuída para pensar e concentrar-se, transtornos alimentares e do sono, sentimentos de desamparo e desesperança, sensação de não dar conta do bebê, sentimentos de inutilidade ou culpa, pensamentos recorrentes de morte, bem como manifestações psicossomáticas como cefaleia, hemorragias, infecções, fissuras mamárias e dificuldades na lactação, entre outros. (MORAES, 2010)

Quando buscar ajuda?

Elaboramos esse texto com o intuito de ajudar a diferenciar o que é próprio do puerpério e o que é patológico. Isso porque acreditamos que a informação é uma forte aliada nossa, sobretudo em se tratando de uma época em que as informações estão à disposição, porém nem sempre confiáveis e algumas vezes, até confusas.

Quando uma mãe sente que algo não está seguindo o curso esperado, ou quando sente uma angústia muito forte, é necessário levar em conta aquilo o que sente. O puerpério é um momento de despedida entre aquilo que fui e aquilo que agora serei, é a despedida entre o bebê que antes era somente meu e agora passa a ser nosso (de toda a família), o ideal do real.

Profissionais da área de saúde, em especial obstetras e pediatras, estejam atentos quando uma mãe lhe falar sobre uma angústia, uma dor, um incômodo advindo da experiência da maternidade que não a permite exercer esse papel ou até que permite, mas causando-lhe uma profunda tristeza. Sim, isso pode ser normal e passa. Mas, em alguns casos, pode ser um pedido de ajuda que não cabe ser negado.

Feridas que nem se sabia existir podem ser abertas diante da chegada de um filho. Dores antigas podem ser revividas. E quando isso acontece é importante aproveitar o momento para reorganizar os sentimentos, evitando que eles passem adiante, de mãe para filho, pois se já sabemos que isso pode acontecer, de acordo com a teoria das transmissões trans e intergeracionais.

De todo e qualquer modo, é necessário ouvir a mãe. E ouví-la sem julgamentos e sem minimizar e/ou menosprezar seus sentimentos. Pelo contrário: é importante validá-los! Estar atento à relação entre ela e o bebê visando verificar se o seu estado interfere na relação, e se o faz a ponto de prejudicar o desenvolvimento do bebê.

Uma mãe que sofre, que está angustiada diante desse novo papel precisa de acolhimento e, em algumas situações, de ajuda profissional para evitar que essa dor na alma se alastre e que atrapalhe o vínculo com seu filho.

No IV Encontro Brasileiro para o Estudo do Psiquismo Pré e Perinatal, ao apresentar seu relato sobre atendimento psicológico pós-parto: uma ação preventiva, Silvia Pinheiro Machado nos diz que o atendimento psicológico no puerpério situa-se no âmbito da Psicologia Preventiva. O psicólogo estaria, aqui, na função de cuidar de um momento tão intenso, capaz de sensibilizar, de fragilizar, de deprimir visto que este período é “um momento em que tudo está exposto, sensível à luz.” (SZEJER, 1999).

Que possamos aproveitar desse momento para promover a resignificação de feridas e dores antigas e abrir-nos para novas experiências.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

❇ CABRAL, Stela Araújo; LEVANDOWSKY, Daniela Centenaro. Representações Maternas: aspectos teóricos e possibilidades de avaliação e intervenção clínica. Estilos da Clínica. Porto Alegre. V. 16, N. 1. p. 186-203, Maio-Nov. 2010.

❇ MALDONADO, M.T. Psicologia da Gravidez. 17ª Ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2005.

❇ MORAES, Maria Helena Cruz de. A Clínica da Maternidade: os significados psicológicos da depressão pós-parto. 2010. 178f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Área de concentração: Processos Psicossociais, Saúde e Desenvolvimento Psicológico. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2010.

❇ RAPHAEL-LEFF, J. Gravidez: a história interior. Porto Alegre: Editora Artes Médicas, 1997.

❇ SALES, Lea Maria Martins. A “loucura das mães: do desejo à realidade do filho. In.: ROHENKOHL, Cláudia Mascarenhas Fernandes. A Clínica com o Bebê. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.

❇ SZEJER, Myriam. A Escuta Psicanalítica de Bebês em Maternidade. ABREP – Associação Brasileira para o Estudo do Psiquismo Pré e Perinatal: Casa do Psicólogo, 1999.

❇ WINNICOTT, D. W. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2000.


Exibindo eu311.png  Texto escrito por Lorena Viena
Psicóloga membro Grão de Amor | Assistência Especializada Materno-Infantil
Especialista em Saúde na Infância
    (75) 9.8841-2262

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